Pesquisar
08/12/2016 Regencia esta mais viva do que nunca

Um ano após desastre ambiental, simpática e acolhedora povoação no litoral capixaba dá a volta por cima e já se organiza para receber os turistas de verão


Regência - ES (05/12/2016) – O rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), acaba de fazer um ano. A lama, que escorreu ao longo do rio Doce e foi bater no Oceano Atlântico, afetou a rotina dos moradores da Vila de Regência Augusta, em Linhares, no litoral do Espírito Santo. Aos poucos, no entanto, a pacata povoação à beira do mar vai dando a volta por cima e já se prepara para receber turistas neste verão. Em texto inspirado, a assessora de comunicação do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartarugas Marinhas (Tamar), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a analista ambiental e jornalista Sandra Tavares, descreve como está a situação hoje no local. Leia a seguir.

O que não mata, fortalece

Uns chamam de desastre. Outros de acidente. Outros ainda de crime. Não importa o nome que seja dado ao que aconteceu no dia 5 de novembro de 2015. O mais adequado seria “o inominável”, ou seja, aquilo para o qual não se tem nome. Passado um ano do desastre ocorrido no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), muito trabalho há para ser feito. Disso ninguém duvida.

A vila de Regência Augusta, em Linhares (ES), onde a lama de rejeitos de mineração da Samarco literalmente desembocou no mar, tem uma comunidade forte e que continua viva. Os impactos sociais provocados pela desestruturação de atividades básicas como a pesca e o lazer não farão com que a vila deixe de existir. E se o ditado é “aquilo que não mata, fortalece”, Regência parece mesmo querer sair dessa história mais fortalecida.

O caboclo é forte e resiste a muita coisa. Tanto que a temporada de verão de 2017 está em cima e não se deve perder de vista o percurso que pode ser feito por qualquer turista que curte natureza em estado puro. A vila em sua simplicidade, por seu estilo pacato, de um povo hospitaleiro e comida caseira, continua a ser um bom roteiro. Basta caminhar a pé pela vila, para ver as árvores frutíferas, sentir a energia da estrada de terra batida e conectar-se com a brisa vinda do mar – bem conhecido pelos surfistas.

O show das tartarugas

As tartarugas e toda a riqueza do trabalho desenvolvido há mais de 35 anos pelo Tamar são outros elementos que dão vida e mais movimento ao lugar. Todos, sejam crianças ou adultos, maravilham-se com a presença de uma fêmea desovando na praia (o que vem ocorrendo desde novembro), na famosa "carebada" noturna (caminhada à noite pela praia), ou mesmo com saída de lindos filhotes em direção ao mar, quando começa a temporada de eclosão dos ninhos (a partir de janeiro).

A vila respira simplicidade e nos convida a fazer um retorno. Sim. Sabe aquela placa que diz ‘volte’, quando você permanece correndo sem saber exatamente para onde e atrás do quê? Regência simboliza essa placa do “volte”, “volte para dentro de você”, “reconecte-se”. Ali, na vila, você encontra um refúgio. Você pode sem medo tirar o “plugue da tomada” e desacelerar.

Em uma conversa informal com moradores da vila se ouve: “Aqui a gente tem tempo”. O tempo, esse elemento tão escasso nesses dias, em que se faz tanta coisa e se conclui ao final que ainda falta muito a ser feito. A vila e seus moradores mostram que o tempo pode ser saboreado, que o ouvido pode se acostumar com sons de pássaros ao invés dos carros, do rush. O tempo na vila, por si só, se ressignifica, assim como a comunidade está se ressignificando após o desastre ambiental.

Ao som do mar e do congo

Em Regência o desafio é chegar com o barulho interno da mente e conseguir retornar sem os “macacos saltitantes” do pensamento. É desconstruir o modelo que está imperando, do consumo, do ter, e poder voltar, sim, mais vazio sem necessariamente estar oco.

E se os sons da natureza parecem calmantes naturais, como o som das ondas quebrando, há uma batida digamos especial, que convida o corpo ao movimento. Falo aqui do congo, expressão cultural tipicamente capixaba, que encontra em Regência seus fiéis perpetuadores por gerações e gerações.

São homens e mulheres que juntos unem tambores, casacas e um mestre para celebrar santos como São Benedito e Santa Catarina. As músicas, marcadas por fé, envolvem todos que estão assistindo. O apito dá a condução das batidas. Uma festa marcante.

Se o “inominável” aconteceu, o fato é que hoje há muitas vidas e muitos valores bem maiores que a tragédia e fazendo desta vila simples, pacata e charmosa um lugar especial para se conhecer. Fica o convite.

Reserva biológica

Pertinho da vila, na faixa costeira vizinha, os olhos podem contemplar uma restinga muito peculiar e bela. São arbustos e gramíneas espaçados que se agrupam até formar os bosques. Segundo a Classificação da Vegetação Brasileira, ao longo do litoral, são comuns terófitos, criptófitos, hemicriptófitos, caméfitos e nanofanerófitos. Os nomes são técnicos, mas a beleza é ímpar. Essas restingas existentes em Comboios são as formações mais intactas e preservadas do litoral do Espírito Santo.

Criada em 1984, a Reserva Biológica de Comboios, unidade de conservação administrada pelo ICMBio, tem como objetivo principal proteger as desovas de tartaruga-de-couro (Dermochelys coriácea), exatamente pela área ser considerada um dos seus maiores sítios de desova dessa espécie no Estado.

As praias abrigam o único ponto conhecido de concentração de desovas dessa espécie, popularmente chamada de "Gigante", além de ser o segundo maior ponto de concentração da tartaruga cabeçuda (Caretta caretta), no Brasil. Por isso ali está instalada uma das mais antigas e importantes bases do Projeto Tamar.

Em 1950, a região foi declarada, pelo Instituto Osvaldo Cruz, um dos mais importantes remanescentes de restinga do Brasil, por abrigar também várias espécies de animais ameaçados de extinção, como a preguiça-de-coleira, o tamanduá e o macaco-prego.

Comboios faz referência à maneira como se organizavam os brancos colonizadores, em comboios e caravanas, para desbravar e explorar a região, quando ela ainda era habitada pelos índios botocudos, etnia extinta desde o início do Século XX. No limite sul da Rebio de Comboios fica a Terra Indígena de mesmo nome, habitada por índios da etnia Tupiniquim.

Comunicação ICMBio - (61) 2028-9280 - com Ascom Tamar - (27) 3222-1417